A escolha do exame influencia diretamente o diagnóstico
Pacientes com pirose, regurgitação, disfagia, dor torácica não cardíaca ou sintomas extraesofágicos são frequentes na prática do gastroenterologista. Embora a endoscopia digestiva alta seja o exame inicial em muitos casos, ela avalia principalmente alterações estruturais e da mucosa, não sendo capaz de identificar diversas alterações funcionais do esôfago.
Nesse contexto, exames como a manometria esofágica de alta resolução, a pHmetria esofágica de 24 horas e a impedâncio-pHmetria desempenham papel fundamental na investigação diagnóstica. Apesar de frequentemente solicitados em conjunto, cada um possui objetivos e indicações específicas.
Conhecer as diferenças entre esses exames é essencial para evitar solicitações desnecessárias, otimizar a investigação e conduzir o tratamento de forma mais assertiva.
Manometria esofágica: avaliação da função motora
A manometria esofágica de alta resolução é o exame indicado para avaliar o funcionamento do esôfago. Ela analisa a pressão e o relaxamento do esfíncter esofágico inferior, além da coordenação e da força das contrações esofágicas.
Seu principal objetivo não é diagnosticar refluxo gastroesofágico, mas identificar distúrbios motores responsáveis por sintomas como disfagia e dor torácica.
Com a utilização da Classificação de Chicago 4.0, a interpretação tornou-se mais padronizada, permitindo o diagnóstico de doenças como:
- Acalásia;
- Obstrução da junção esofagogástrica;
- Espasmo esofágico distal;
- Esôfago hipercontrátil;
- Motilidade esofágica ineficaz.
Quando solicitar a manometria?
As principais indicações incluem:
Investigação da disfagia
- Pacientes com dificuldade para deglutir e endoscopia sem alterações estruturais devem ser avaliados por meio da manometria. O exame permite diferenciar distúrbios motores que apresentam tratamentos distintos.
Avaliação pré-operatória da cirurgia antirrefluxo
- Antes da realização de fundoplicaturas ou outros procedimentos antirrefluxo, a manometria é indispensável para excluir doenças motoras e auxiliar na escolha da técnica cirúrgica mais adequada.
Dor torácica de origem esofágica
- Após exclusão de causas cardiovasculares, o exame pode identificar alterações motoras relacionadas ao quadro clínico.
Além disso, a manometria costuma preceder a realização da pHmetria ou da impedâncio-pHmetria, pois define com precisão a localização do esfíncter esofágico inferior para o correto posicionamento da sonda.
pHmetria: avaliação da exposição ácida
A pHmetria esofágica de 24 horas é um exame destinado à avaliação da exposição do esôfago ao refluxo ácido.
Durante o monitoramento são registrados:
- tempo de exposição ácida;
- número de episódios de refluxo ácido;
- duração dos episódios;
- associação entre refluxo e sintomas.
Embora permaneça importante na investigação da doença do refluxo gastroesofágico (DRGE), sua principal limitação é detectar apenas episódios ácidos.
Quando solicitar a pHmetria?
Entre as principais indicações estão:
- suspeita de DRGE com endoscopia normal;
- documentação objetiva do refluxo antes da cirurgia antirrefluxo;
- investigação de sintomas típicos persistentes quando ainda não existe confirmação diagnóstica.
Atualmente, entretanto, muitas dessas situações passaram a ser melhor avaliadas pela impedâncio-pHmetria.
Impedâncio-pHmetria: avaliação completa do refluxo
A impedâncio-pHmetria representa um avanço importante na investigação dos pacientes com suspeita de refluxo.
Além de medir o pH, o exame utiliza sensores de impedância capazes de identificar qualquer movimentação de conteúdo dentro do esôfago, independentemente da acidez.
Assim, é possível detectar:
- refluxo ácido;
- refluxo fracamente ácido;
- refluxo não ácido;
- refluxo líquido;
- refluxo gasoso;
- altura alcançada pelo refluxo;
- correlação entre episódios de refluxo e sintomas.
Essa avaliação mais abrangente permite compreender situações que a pHmetria convencional não consegue identificar.
Quando solicitar a impedâncio-pHmetria?
A impedâncio-pHmetria é especialmente útil em pacientes que continuam sintomáticos apesar do tratamento com inibidores da bomba de prótons (IBPs).
Também está indicada em casos de:
- sintomas persistentes com pHmetria previamente normal;
- investigação de refluxo não ácido;
- sintomas extraesofágicos com suspeita de associação ao refluxo;
- avaliação de hipersensibilidade ao refluxo;
- diferenciação entre refluxo funcional e outras causas dos sintomas.
Além de documentar o número de episódios de refluxo, o exame estabelece uma correlação temporal entre os sintomas apresentados pelo paciente e os eventos registrados durante as 24 horas de monitorização.
Como escolher o exame mais adequado?
A escolha deve sempre partir da pergunta clínica.
| Situação clínica | Exame preferencial |
|---|---|
| Disfagia | Manometria esofágica |
| Suspeita de distúrbio motor | Manometria esofágica |
| Confirmação de DRGE | pHmetria ou impedâncio-pHmetria |
| Sintomas persistentes em uso de IBP | Impedâncio-pHmetria |
| Avaliação pré-operatória | Manometria + exame para documentação do refluxo |
| Investigação de refluxo não ácido | Impedâncio-pHmetria |
Mais do que exames concorrentes, essas ferramentas são complementares e frequentemente utilizadas de forma integrada.
Erros frequentes na solicitação dos exames
Alguns equívocos ainda são observados na prática clínica:
- solicitar manometria para confirmar refluxo;
- utilizar apenas a pHmetria em pacientes com suspeita de refluxo não ácido;
- indicar cirurgia antirrefluxo sem documentação objetiva do refluxo;
- interpretar exames funcionais sem considerar o contexto clínico.
A correta indicação dos exames aumenta significativamente a precisão diagnóstica e evita tratamentos inadequados.
Conclusão
A investigação das doenças esofágicas evoluiu significativamente com o desenvolvimento dos exames de fisiologia digestiva.
Enquanto a manometria esofágica é o método de escolha para avaliação da motilidade, a pHmetria documenta a exposição ao refluxo ácido e a impedâncio-pHmetria oferece uma análise mais completa, identificando também episódios fracamente ácidos e não ácidos.
A escolha adequada depende da hipótese diagnóstica e da pergunta clínica que se pretende responder. Quando bem indicados e interpretados, esses exames permitem diagnósticos mais precisos, melhor seleção terapêutica e maior segurança na condução dos pacientes.
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