Homem com as mãos no peito e estômago sinalizando dor

Consenso de Lyon 2.0: o que mudou no diagnóstico da DRGE?

A doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) permanece uma das condições mais frequentes na prática gastroenterológica. Apesar de sua elevada prevalência, o diagnóstico nem sempre é simples. Sintomas típicos, como azia e regurgitação, apresentam valor clínico importante, mas isoladamente não são suficientes para confirmar a doença.

Nos últimos anos, avanços nos métodos diagnósticos e o crescente entendimento da fisiopatologia do refluxo impulsionaram a necessidade de atualização dos critérios diagnósticos. Nesse contexto, o Consenso de Lyon 2.0 surge como uma importante evolução em relação à publicação original de 2018, oferecendo uma abordagem mais objetiva, baseada em evidências e direcionada para a tomada de decisão clínica.

 

Por que o Consenso de Lyon foi atualizado?

O principal objetivo da atualização foi aprimorar a precisão diagnóstica da DRGE e reduzir a dependência excessiva dos sintomas como critério diagnóstico.

Diversos estudos demonstraram que sintomas típicos podem estar presentes em pacientes sem refluxo patológico documentado, enquanto alguns indivíduos com exposição ácida aumentada apresentam manifestações clínicas discretas ou atípicas.

Além disso, a crescente utilização da monitorização ambulatorial do refluxo e dos exames de fisiologia digestiva permitiu uma melhor definição dos parâmetros associados à doença.

O Lyon 2.0 propõe uma definição moderna de DRGE baseada em evidências objetivas capazes de modificar condutas terapêuticas, conceito denominado “actionable GERD”.

 

Updates to the modern diagnosis of GERD: Lyonconsensus 2.0
Updates to the modern diagnosis of GERD: Lyon consensus 2.0

 

Da definição baseada em sintomas para a confirmação objetiva

Historicamente, muitos pacientes eram diagnosticados e tratados com base apenas na resposta aos inibidores da bomba de prótons (IBPs).

O novo consenso reforça que a resposta clínica ao tratamento não deve ser utilizada como critério definitivo para diagnóstico.

Embora sintomas como:

  • Azia;
  • Regurgitação;
  • Dor torácica não cardíaca;

possam aumentar a suspeita clínica, eles devem ser interpretados em conjunto com exames complementares quando houver necessidade de confirmação diagnóstica.

Essa mudança é particularmente relevante em pacientes com sintomas persistentes, refratários ou candidatos a terapias invasivas.

 

O conceito de DRGE comprovada e DRGE não comprovada

Uma das mudanças mais importantes do Lyon 2.0 foi a diferenciação entre:

DRGE não comprovada (Unproven GERD)

Pacientes sem documentação prévia objetiva da doença.

Exemplos:

  • Sintomas típicos sem exames prévios;
  • Endoscopia normal;
  • Ausência de evidências anteriores de refluxo patológico.

Nesses casos, a investigação deve ser realizada preferencialmente sem terapia supressora de ácido.

DRGE comprovada (Proven GERD)

Pacientes que já apresentam evidências objetivas da doença.

Exemplos:

  • Esofagite erosiva;
  • Exposição ácida patológica documentada;
  • Diagnóstico prévio confirmado por exames.

Nesses pacientes, exames realizados durante o tratamento podem auxiliar na investigação de sintomas persistentes ou refratários.

Essa distinção modifica diretamente a estratégia diagnóstica e a interpretação dos exames.

 

Médico examinando paciente
Médico examinando paciente

 

A esofagite grau B passa a ser evidência conclusiva

Uma das atualizações mais discutidas envolve a classificação endoscópica.

No consenso original, apenas esofagites mais avançadas eram consideradas evidência definitiva de DRGE.

No Lyon 2.0, a presença de esofagite erosiva grau B, C ou D pela Classificação de Los Angeles passa a representar evidência conclusiva da doença.

Essa alteração simplifica o diagnóstico em muitos pacientes e aumenta a sensibilidade da avaliação endoscópica.

 

Atualizações na monitorização do refluxo

A monitorização ambulatorial continua sendo um dos pilares do diagnóstico.

O Lyon 2.0 reforça a importância da exposição ácida esofágica (AET – Acid Exposure Time) como principal métrica diagnóstica.

Quando investigar fora do uso de IBP?

Pacientes com DRGE não comprovada devem ser avaliados preferencialmente sem medicação antisecretora.

Os métodos incluem:

  • pHmetria esofágica prolongada;
  • pHmetria por cateter;
  • Impedâncio-pHmetria.

O objetivo é determinar se existe exposição ácida patológica suficiente para justificar os sintomas.

Quando investigar durante o tratamento?

Pacientes com DRGE comprovada e sintomas persistentes podem se beneficiar da monitorização realizada sob terapia otimizada.

Nessa situação, o exame busca identificar:

  • Refluxo residual;
  • Falha terapêutica;
  • Hipersensibilidade ao refluxo;
  • Possíveis diagnósticos alternativos.

 

O papel crescente da impedâncio-pHmetria

A impedâncio-pHmetria ganha ainda mais relevância no Lyon 2.0.

Além da quantificação da exposição ácida, o método permite avaliar:

  • Refluxos fracamente ácidos;
  • Refluxos não ácidos;
  • Correlação sintoma-refluxo;
  • Características do conteúdo refluído.

Essas informações são particularmente úteis em pacientes com sintomas persistentes durante o uso de IBP.

 

Paciente realizando o exame de Ph-impedânciometria esofágica
Paciente realizando o exame de Ph-impedânciometria esofágica

 

Métricas auxiliares continuam importantes

Quando os achados principais são inconclusivos, métricas complementares podem aumentar ou reduzir a probabilidade diagnóstica.

Entre elas destacam-se:

Número total de episódios de refluxo

Valores elevados fortalecem a suspeita diagnóstica quando associados a outros parâmetros.

Impedância basal

A impedância basal reflete a integridade da mucosa esofágica.

Valores reduzidos sugerem dano mucoso crônico relacionado ao refluxo.

Associação sintoma-refluxo

A análise da associação temporal entre sintomas e eventos de refluxo permanece útil em casos selecionados.

 

Quais critérios perderam importância?

O Lyon 2.0 também removeu ou reduziu a relevância de parâmetros que demonstraram baixo desempenho diagnóstico ao longo dos últimos anos.

A proposta é concentrar a avaliação em métricas com melhor capacidade discriminatória e maior aplicabilidade clínica.

Essa mudança contribui para reduzir diagnósticos equivocados e evitar tratamentos desnecessários.

 

Impactos na prática clínica

As atualizações trazidas pelo Lyon 2.0 reforçam uma tendência crescente na Gastroenterologia moderna: o diagnóstico da DRGE deve ser baseado em evidências objetivas sempre que possível.

Entre os principais impactos estão:

  • Maior precisão diagnóstica;
  • Melhor seleção de pacientes para tratamento prolongado;
  • Investigação mais adequada do refluxo refratário;
  • Redução do uso indiscriminado de IBPs;
  • Melhor definição dos candidatos a terapias endoscópicas ou cirúrgicas.

Além disso, a integração entre endoscopia, monitorização do refluxo e exames de fisiologia digestiva fortalece o papel da Neurogastroenterologia na avaliação desses pacientes.

 

Conclusão

O Consenso de Lyon 2.0 representa um importante avanço na abordagem diagnóstica da DRGE.

A nova versão reforça a necessidade de documentação objetiva da doença, diferencia pacientes com DRGE comprovada e não comprovada, amplia o papel da monitorização do refluxo e atualiza critérios endoscópicos relevantes para a prática clínica.

Para o gastroenterologista, compreender essas mudanças é fundamental para oferecer diagnósticos mais precisos, evitar tratamentos inadequados e individualizar a conduta de acordo com o perfil de cada paciente.

 

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